A sina, o caminho,ou simplesmente uma história igual a tantos outros caminhos ou, semelhante a tantas outras vidas...

13
Jan 09

 

 
      No céu , Maria podia ver mais uma estrela a brilhar…
      Sentia o céu cada vez mais como parte de si…
        É impressionante mas à medida que vamos sentindo o tempo passando por nós, à medida que vamos vivendo a vida, vamos sentindo toda a natureza como algo que cada vez mais, vai fazendo também parte de nós…  Cada vez mais a vamos conhecendo melhor, a vamos sentindo como nossa…
         Maria sentia isso ao olhar o céu… De dia podia sentir o calor do sol, admira-lo e senti-lo com ela…
        Há noite, podia olhar as estrelas a brilharem no manto negro da noite, e sentir a sua companhia…
      Maria tinha perdido o bebé que  tanto desejava, mas tinha-lo transformado numa das estrelas que todas as noites podia ver para si brilhando…
       Era uma mulher como tantas outras. Tinha a profissão que quis ter, não era de se queixar da vida, e estando ela já na casa dos trinta e alguns, sentia o desejo que qualquer mulher sente. O de poder sentir o amor de ser mãe…
      Tinha o coração grande, com algumas cicatrizes, mas nenhuma se comparava aquela com que tinha ficado… Podia até viver sem o amor de um amigo, de um homem, mas nunca de um filho…
        Sim, Maria já o sentia como tal… Como um filho, uma semente ou um rebento de todo o amor que tem dentro do si…  Reuniu nele todo o amor que tinha em si. Todas as forças, deu-lhe todo o seu sentimento,  tudo de si…
      Naquela altura, tudo parecia mais calmo, mais sereno… Toda aquela fase de tranquilidade explodiu em poucas semanas. Primeiro, com a noticia de gravidez de risco. Depois com a prenuncio do fim…
         Maria não era mulher de parar.. Nunca foi.
         E não se convenceu que tinha de parar… Agora sobejam-lhe as  ideias de culpa… Mesmo quando os entendidos lhe dizem, que fez tudo certo…  Que  a natureza é soberana. Há sempre algo dentro dela que numa rajada forte e seca de vento lhe diz, podias ter feito mais… O sentimento de culpa mitigado com impotência e raiva é o sangue que lhe corria nas veias…
        Num pulo de semanas se passou para a triste noticia… Mais uma vez perdera sangue, e desta vez, já não havia vida…
        A ideia de ter o seu amor dentro de si a morrer, matava-a. Mas depois a noticia que o seu amor tinha morrido dentro de si, já a tinha morto…
       O amor morreu, a sua dor espelhava-se no rosto e as lágrimas tinham-lhe  partido para o céu…
    O tempo passou, reencontrou as lágrimas. mas aquelas que lhe correm agora no rosto, são o  cumprimento à estrela, que do ventre lhe fugiu para o céu …
publicado por longocaminhopcasa às 17:24

08
Jan 09
 
As estrelas iluminam a noite, o sol vai iluminando o dia, mas a vida nem sempre faz o sol sorrir e as estrelas brilhar…
A vida nem sempre corre como ambicionamos.
Às vezes os instantes de emancipada fortuna acabam por tornar-se momentos de dor, em que pura e simplesmente não lhe inventamos o sentido.
A verdade é que a natureza sabe muitas vezes mais do que nós, e age para nos poupar de maior sofrimento no futuro. A natureza é sábia….
Esta era a frase que Maria mais tinha nos ouvidos…
Ela gostava muito de escrever, mas naquela época nem conseguia falar, quanto mais escrever…
Só conseguia pensar em como a dor se tornou tão amiga nos últimos meses, nos últimos anos…
Nos seu olhar podia reconhecer-se o brilho do sofrimento.
No sorriso havia a transparência forçada de quem não consegue esconder a dor...
Pouco falava. No trabalho, em casa, com os amigos, até com os familiares mais chegados... Tinha passado a ser um assunto tabú... Como se isso de alguma forma lhe pudesse amortecer o sofrimento...
Foi então que numa noite fria de solidão sentida,  Maria pegou no diário, ajeitou a caneta e escreveu:
Durante um, dois ou três meses (às vezes mais), devaneamos o futuro. Apegamo-nos ao ser que começa a ser gerado cá dentro. Concedemos-lhe a personalidade que na realidade ele ainda não tem e constituímos sobre algo ainda tão embrionário o fardo de um sublime e devaneado futuro.
O mundo estacou. Tal como a minha mente.
 Permaneci ,tal como permaneço ali, naqueles momentos, naqueles instantes longos, a tentar arrancar um sentido daquilo tudo. Porquê, porquê, Porquê? São perguntas às quais sei que nunca encontrarei resposta.
Abalei sem o futuro nas mãos. Tal e qual como ainda me sinto… Deixei-o escorregar-me das mãos.
 No sangue que foi correndo, também eu fui perdendo um pouco da felicidade que tinha dentro de mim…
O sentimento de injustiça foi o primeiro a surgir.
Depois veio a negação. Inexistiam sintomas de que algo estava assim tão errado. Não... Não podia ser tão mau.... Já estava tudo a correr bem.... Porquê tudo outra vez? Ou porque não foi tudo como da ultima vez? Um susto.... Não podia ser... Eles só podiam estar errados...
Procurei freneticamente em toda a internet, respostas...Letras, palavras, que me podessem iludir .... 
Procurei ao mesmo tempo que na mente corriam as letras P O R Q U Ê?
Procurei, procurei, procurei. Procurei, na esperança de encontrar relatos de diagnósticos falhados. Encontrei alguns, mas poucos. 
Mas, no fundo eu sabia qual era verdade…
 E agora, como estou?
Vivo, ou já perdi parte de mim e como estou, também morri?”

 

publicado por longocaminhopcasa às 20:52

30
Dez 08

 

 
 
 
Tal como a lua desaparece ao raiar do dia, também ela se escondeu nos raios de sol…
O desaparecimento do anjo odorava a mau pressagio…
Deixou de ver o sol, de sentir os seus raios a queimar-lhe o corpo e a derreter-lhe a alma…
Hoje, Maria olha para o Céu, e nas estrelas que lhe molham o rosto recorda, o sol, o anjo e a sua estrelinha…. Do rosto escorre-lhe uma lágrima com o sal da tristeza e o açúcar da paz… Daquela paz de quem está bem com a sua consciência…
Parece que finalmente reencontrara o caminho seguro que a levara até casa.
Sorria escondendo a tristeza e a falta de alegria que foi afogando na ideia de construção da família, que tanto desejara…
Aos poucos foi reconstruindo os cacos do amor que se tinha apagado…
Abriu o coração e deixou-o amar.
Agora, Maria vive um dia de cada vez. Percebendo que na vida há muitas injustiças e sofrer faz parte dela , como sofre com as estrelas que tem no céu…
Os meses foram passando, e as magoas foram secando. O sorriso foi abrindo até poder sentir a primavera. O brilho das flores, o calor do sol, o amor do mar e o calo da família que tanto sonhara ter.
Todos os meses Maria rezava a Deus.
Pedia paz e amor, para todos e ao seu anjo, pedia ajuda para lhe dar o bisneto que ambas tanto desejavam.
Passavam os meses frios, regressam os meses quentes e findos os quais nada parecia florir.
No entanto, no céu já nascera uma estrela, que já estava dentro de si…
- A roupa deixara de lhe servir, a fome parecia galopar o seu desejo de manter a linha.
Aos enjoos, Maria não dava valor, não passavam do fruto das habituais enxaquecas… Ou afinal, não…
Afinal havia uma estrela a nascer dentro de si…
publicado por longocaminhopcasa às 22:33

31
Jul 08

 

 
 
No caminho, Maria seguia o pensamento que as ideias soltas permitiam. A ideia da rosa tornou-se persistente na sua memória de medo e alegria pintando-lhe as ideias.
A rosa era linda. Vermelha. Mas a esperança que ela simbolizava, essa esperança tinha murchado…
Maria estava com medo do reencontro, mas também se sentia a transbordar de felicidade. De tal modo que parecia sentir um tremor de terra dentro de si.
Mal chegou, procurou logo o carro dele. Não estava. Ainda não tinha chegado. Ela tinha chegado primeiro, como desejava que acontecesse.
Subiu apressadamente, fez umas festas ao Rex, enquanto o acompanhava à rua, para que fizesse as necessidades o mais rapidamente possível. Ele parecia não cooperar, parece que cheirava tudo quanto é arvore, e parecia louco atrás da sua princesa canina com cio.
- Despacha-te Rex, implorava Maria.
- Pronto, já chega vamos embora, que a dona está com pressa.
Entrou em casa, e pôde ver o seu ar de angústia no espelho do hall.
Tenho de me acalmar, estou demasiado ansiosa… pensa Maria
Um toque no telemóvel, faz com que corra para a janela, levando os móveis que se atravessaram no caminho. Só para o poder espreitar a sair do carro, e o admirar…
Lindo como sempre… Eu adoro este Homem….. Pensa Maria.
Podia sentir o elevador a subir, e contar os andares, como se lá viesse. Mal abre a porta, a sua mente foi inundada por uma avalanche de tinta branca, o pensamento pára, e só sente as batidas dos dois corações juntos num abraço molhado de beijos e apertos de amor repleto de saudade.
Passados uns minutos, ficam os dois de lábios a tocarem-se olhando um ao outro nos olhos, como quem diz, amo-te tanto.. Mas tanto…
Soam palavras em duo:
- Amo-te tanto Nina/no.. Tive tantas saudades tuas. Estava tão ansioso/a por te ver!
Gargalhada total!
-Eu não acredito nisto! Será possível que possamos falar assim os dois, sempre um ao outro, espontaneamente as mesmas coisas, ao mesmo tempo?
-Mas o que é isto amor? O que é isto? Pergunta-lhe ele.
Num gesto as roupas voaram, e saciaram os corpos sedentos de amor, ali mesmo…
Abraçados um ao outro na cama, gozavam das sensações de corpo exausto, e sem forças para ir á cozinha buscar algo que lhes alivie a sede e alimente repondo energia aos corpos cansados. Mais um beijo, e são interrompidos..
Toca o telemóvel dele, são nove da noite.
-Desculpa amor.
-Tudo bem, atende. Diz Maria tentando sorrir
- Já volto amor. Desculpa. Diz ele, enquanto num pulo, sai da cama e se afasta do quarto.
            Mal ele saiu da cama, Maria agarra-se com toda a força à almofada libertando a força da sua raiva e de tristeza…
Sentia-se frágil e carente… Mas, não podia chorar, nem mostrar parte fraca! Que bem lhe sabia o colo do seu anjo… O abraço… A companhia… O chá… O seu aval…
Ela tinha sido uma perda incrível… Maria ficara inconsolável quando viu o corpo ser entregue à terra… Recusava-se a aceitar… Ficou dias e dias assim… Não vivendo. Recusando-se a aceitar que iria perder para sempre o corpo da mulher que tanto lhe ensinara, que tanto amor lhe ensinara a dar…
Um dia, num sonho acordado sentiu uma voz que lhe era familiar, uma imagem numa claridade cegante… Reconheceu-a de imediato…
Era noite, a lua estava linda e estava a chover…
publicado por longocaminhopcasa às 19:02

23
Jul 08

 

 
Acordou num sorriso molhado…
Era hoje o dia!
Sentia-se feliz… Levantou-se vagarosamente, e correu para o espelho da casa de banho, onde pôde ver  no rosto, a alegria misturar-se com o medo.
 Sentia o coração apertado. Depois de tudo o que aconteceu. E hoje era a primeira vez que Maria ia ver o seu amado., depois de ter dado o tal passo em frente, por isso sentia-se aliviada mas com medo.
Tinha medo de estar errada quando decidiu deixar a vida estável que tinha, por um amor incerto, uma relação proibida…
Sentia-se estranha.. E não se devia ao facto, de só ela ter dado o tal passo. Até porque ela nunca pressionou nesse sentido! Antony sempre a fez sonhar com enredos de romance… De vida a dois… As palavras mascaradas de esperança sempre existiram.. E viver o futuro era o lema.. Esperar que o tempo passasse e que um dia tudo mudasse!
Mas, Maria sentia um aperto no coração. Pressagiava, que nem tudo lhe tinha sido narrado… No fundo sabia que tudo seria ilusão… Mas a outra parte dela acreditava no sonho, no amor, no coração! Ela sentia…  Sentia-se estranha…
De repente o pensamento de Maria ilumina-se pela recordação que tinha do sorriso de Antony… No espelho vê a sua imagem a transformar-se na rosa que guardava… A rosa, continuava consigo… Tinha-a guardado para sempre no seu coração… Tinha-a ali ao lado, a longos quilómetros de distância, mas estava presente… Sempre presente… E chegara o momento de se verem, de se tocarem, de se sentirem com a mudança!
Resolveu mimar-se para ele…
Não prescindiu do banho caprichado, de uma hora para escolher a indumentária e da imprescindível sessão de massagens no Saldanha.
Estava no escritório a contar os minutos até as 16h. As folhas dos processos bailavam-lhe nas mãos. As páginas dos códigos moviam-se sozinhas, e o texto dos artigos era sempre o mesmo, “Amor estou a passar a ponte, estou a chegar”
- Dra. Eu sei que me pediu para não lhe passar mais nenhuma chamada, mas tenho o senhor engenheiro Fred ao telefone.
- Carmen, já disse que eu estava?
- Não, Dra. Disse que estava de saída mas não sabia se já tinha saído.
- Já saí… Já estou a caminho de casa. Agora vou pegar no processo do AMOR,..
- Desculpe?
-Até amanha, Carmem. Bom fim de semana…
-  Então amanha a Dra não vem?
- Não, amanha vou ter reunião o dia todo, do processo mais complicado que tive até hoje. O do Amor! Qualquer coisa, dê-me um toque para o telemóvel, se faz favor. Bom fim de semana!.
- ah ah ah está bem dra, bom fim de semana. Divirta-se que bem precisa!
Vou divertir com certeza Carmem.
- Amor, já estou a passar a ponte! Beijo com AM, que já to vou dar pessoalmente, Amo-te - Antony
publicado por longocaminhopcasa às 17:40

18
Jul 08

 

 
 
Maria, tinha um anjo… Mas de momento ela nem se atrevia a pensar nela… Sabia que se cruzasse com ela, iria ver no seu rosto, a base da cor da bendita chávena de chá.
- Do nosso chá… pensava alto Maria…
  O chá que simbolizava o sermão.. Mas desta vez, estaria desenhado a vapor a palavra culpada…
Pintado com a cor de quem reconhece que fez mal, e está a consumir o castigo que merece…
Sabia que quando se cruzasse com o seu anjo, ela não lhe iria apontar o dedo, como todos os outros. Mas também não precisava…
Bastava aquele sorriso de carinho e protecção acompanhado com o olhar que lhe diz por palavras mudas:
- Tu sabias meu amor, eu avisei-te! Tu sabias… Anda cá….  Senta aqui ao meu colo… Minha menina dos canudinhos…. Deixa lá….   Vives-te! Dói, doeu… Mas vives-te sentiste… Sorriste, amas-te e agora….  Agora sabes o que tens de fazer….Anda cá minha menina… Errar é humano… anda cá minha princesinha…
Então, com medo, que o seu incêndio fosse apagado, esvaindo-se o calor numa imensa pedra de gelo, Maria preferia nem pensar no seu anjo. Não a queria encontrar presente numa luz das curvas do seu pensamento… Da sua consciência pesada…
Doía-lhe sentir o peso da culpa… Remoía-lhe a consciência do que sabia ser o bem, e o mal… Mas o pior peso que Maria sentia, era quando “sentia” o seu anjo… O rasgo que sentia no coração era de tal forma forte, que fazia uma ferida…
Quando bebia da cumplicidade do sentimento que a avó iria fruir, quando fossem ambas confrontadas das suas acções…. Da sua atitude.. A dor que Maria sentia, era tremenda… Sentia o que a sua avó, agora anjo,  pensava da mesma forma. Pensava como a outra parte de si, também pensava.. Também sentia…  Pensava como se fosse ela… Era como se ela fosse a outra parte de si.. Aquela que também sabia que a sua acção, era censurável, mas perdoável… Porque nestas coisas da razão e do coração, nunca há amor sem perdão…Nem nunca há mal que não tenha solução…
Sabia que quando encontrasse o seu anjo, se iria sentir pressionada a tomar uma decisão… A decisão que mais lhe doía tomar… Sabia que ela a perdoava como sempre o fez. Mas também sabia que a iria obrigar a escolher o caminho certo. A seguir o caminho considerado certo, obrigando-a a ouvir a razão!
A avó da Maria, agora seu anjo, sempre tento vestir o coração com a razão… Mas no fundo, no fundo, Maria sabia que ela a percebia, e que afinal, quando chegavam as duas à tal meta das confissões, o peso do coração era elevado ao da razão…
Maria sabia que ela sempre quis parecer mais racional, do que no fundo era.. Agora percebia que seria porque lhe queria mostrar o valor da razão. A sua dimensão, o valor que a consciência tem…, Queria transmitir-lhe isso para que depois a sua princesa pudesse optar conscientemente. Consciente e armada contra todas as frentes que iria enfrentar para ganhar a sua luta… Para poder decidir com a força da guerreira que ela sempre quis criar…
Mas, Maria sabia tudo isso.. E compreendi-a de uma forma inexplicável…Então, Vivia, sorria.. Vivia a ilusão daquilo que no fundo parte dela lhe dizia ser um engano, enquanto a outra parte a fazia sonhar alto…
No entanto, sabia ser inevitável ajustar contas com o seu anjo…
Agarrou-se à almofada e pediu para que o seu anjo lhe guardasse o sono.
De modo silencioso lhe alisasse, os canudos do cabelo, e por motivo nenhum lhe tocasse na ferida… Largou a almofada molhada com a lágrima que deixou fugir, e murmurou baixinho.
- Desculpa. Desculpa a tua menina, mas o amor, tem destas coisas.. Eu sei… Eu sei.. Eu sei.. Mas eu amo-o tanto.. É um amor especial….. Eu sei que tu também sabes isso.. Também sentes isso…
Perdoa-me e ajuda-me que amanhã vou pecar outra vez… Vou deixar a carne às ordens do coração, e vou alimentar o meu amor, com o corpo que amo, mas, mas tenho consciencia,  não ser meu…
Deixa-me sonhar meu anjo… Guarda-me o meu sono e orienta o meu coração pelo meu caminho de casa….
publicado por longocaminhopcasa às 19:26

14
Jul 08

 

 
Maria entrou no carro, ligou a chave, puxou o cinto, ligou as luzes e seguiu o seu caminho…
Seguiu a medo, com o coração cheio de amor, de loucura de esperança…
Libertando o sorriso receoso, Maria tinha fé no seu destino, no seu caminho…
Seguia pensando na decisão que tomara, olhando para a estrada, via o seu caminho.
O caminho mais longo que fez até casa… Ouvia o som do rádio que à medida que avançava, se tornava mudo e as luzes cegantes…
O céu estava escuro, a temperatura gelada e no seu rosto caíam as gotas de chuva que há horas estavam a ser bloqueadas… As gotas que com mais ou menos êxito tinham conseguido ser disfarçadas, ao mesmo tempo que eram contraídas cada vez mais as rugas que na testa lhe despiam o sentimento de melancolia, de fragilidade…
De repente, viu as nuvens dissiparem-se uma a uma. O sol, começava a brilhar radioso, tentando aquecer a sua alma, derretendo a sua dor.
A decisão estava tomada. Havia que seguir em frente, e beber da novidade.
Esperar, era a ordem! O tempo era a bússola que lhe iria indicar o caminho…
Estacionou, em frente à porta.
Resolver primeiro levar o seu companheiro a passear, aproveitando para esticar as pernas, enquanto ele fazia as necessidades…
Subiu carregada das malas e das recordações que não conseguiu esquecer quando entrou em casa…
Ainda com o copo de água na mão, com que matou a sede, Maria  resolveu ligar o computador, para espreitar se  ele estava online, mesmo antes de lhe responder à sms que onde lhe informaria tinha chegado bem. Que tinham feito boa viagem… Ela e o seu mais fiel companheiro… Estava online.. De sorriso aberto, resolveu ficar a olhar para a janela do Messenger, e começou a escrever:
- Já cheguei amor, fizemos boa viagem. Viagem muito cansativa, mas já chegamos!
- Ainda bem amor, beijo para ti! Amo-te Muito e estou cheio de Saudades! Um abraço e um beijo muito apertado para ti e uma festinha ao REX! Até amanhã amor, não vejo a hora de te abraçar!
- Também eu, beijo, com AM.
publicado por longocaminhopcasa às 20:38

10
Jul 08

 

 
A semana tinha sido passada numa nuvem de ansiedade.
Eram contadas as horas, os minutos sublinhados e os segundos riscados, como numa selecção de horas.
Entre horas boas e más, em detrimento do que pressentia estar a chegar…
Conduzia admirando as cores pintadas no céu pelo Sol.
A beleza daquele quadro fê-la voar como a gaivota salpicada de ondas, que avistava. Vinha fugida do mar, em direcção a si…
Adorava passar naquela estrada, quase beijada pelo mar... Devagarinho, de janela aberta, podia sentir a brisa da maresia, e embriagada por ela, nunca deixava de sonhar…
Enquanto seguia na estrada, Maria, deixou-se voar. Na tela passou o filme do seu Longo Caminho para casa.
Passavam na sua mente, em câmara lenta, uma serie de episódios, com uma serie de personagens… Entre lágrimas e sorrisos, ficava-lhe sempre no rosto uma ruga de saudade, uma expressão de sorriso, uma boa recordação.
Sentia que tinha um dom. O Dom de aproveitar só o lado bom das coisas.
Quando transformava o mau, em lição de vida, restaurava-o, pintando-o da cor do sorriso, do perdão…
Tudo fica azul, bonito como o mar, como céu…
Amarela como a areia da praia, ou, tórrido como a cor do Sol…
Pensava no Garry e o sorriso abriu-se … Um grande homem, um grande amigo, sem duvida…
Sentia-se uma felizarda. Tinha alguns  bons amigos, que podia considerar verdadeiros!
Fred, uma rosa em botão, navegando na ponte, olhando para trás soltando um abraço quase  tão sentido como imaginado…
Maria, olha pelo retrovisor e avista o caminho que deixou para trás num sorriso de uma grande amizade. Uma amizade muito especial.
Dirigiu novamente o seu olhar para a frente, e deixou-se enfeitiçar pela cor do  carro preto que seguia à sua frente… Cor, Marca, Modelo igual ao de Michael…
Levou a mão ao rosto, esticou os dedos que lhe limparam as gotas do mar, que sentia escorrer dos olhos…
As nuvens estavam curvas aos seus olhos, desenhando um ponto de interrogação…
No canto escorria uma lágrima do texto já escrito, por quem sabe o que se vai passar…
Deixar uma vida para nada… Lutar por nada… Apostar na solidão…
Sim era assim que ela no fundo imaginava ter sido o resultado sua ultima opção.
Na rua, numa poça de água, espelha-se uma imagem num misto de medo, alegria e tristeza…
Maria, sabia… Pressentia, que nem tudo lhe tinha sido contado. Ela sabia…
Estaciona o carro junto à falésia.
Resolveu sair do carro, só para  melhor sentir a brisa..
 No chão, vê uma rosa, a mesma que tinha trazido consigo, há mais de um mês atrás…
Aquela de que tinha esperança…
Curva o esqueleto e segura-a com firmeza. No dedo fica travado um espinho. Ela leva o dedo junto dos lábios, toca no espinho e dá-lhe um beijo, sussurrando amo-te…
- Amo-te… Meu amor, Amo-te!
publicado por longocaminhopcasa às 18:37

08
Jul 08

 

 

 
E ali acabara de brotar a semente do sentimento mais nobre que pode no mundo existir…
Depressa da rosa brotou o espinho desconhecido. No coração ficou a magoa. Mas ela não conseguiu ser forte o suficiente para fazer esquecer o amor…
O amor, está para distância, como o vento está para o fogo. Se for forte incendeia, se for fraco apaga…
O da Maria tinha sido forte o suficiente para incendiar e depois se transformar num misto de sentimento nobre onde reina a amizade, o carinho, uma espécie de amor platónico e respeito… Acima de tudo respeito… É este o sentimento aristocrata, que nunca deixara de sentir, por quem ela deixou entrar e permitiu que lhe beijasse a alma.
O seu coração é um salão enorme. Grande, mas sem grandes luxos. Apenas com um conforto resumido ao amor, carinho e dedicação… Diz quem a conhece que, depois de lá entrar e beber do seu chá de entrega, que é impossível esquecer… Pode vir no mundo a tempestade que os obrigue a sair, mas esquecer nunca…
Muitas vezes, Garry dizia por palavras mudas, do seu clamoroso sorriso branco:
 - É impossível não ficar derretido perante tamanha beleza, perante tamanha simplicidade, perante tamanha entrega, perante tamanha dedicação…
Depois da sua boca saiam beijos que lhe traziam mimos tais como:
- És linda princesa, linda… E não é só linda de carne… É nesse teu reino do coração! É esse teu lindo coração! És linda, e nunca deixes que te tentem convencer do contrário…
Bem, na verdade, este sentimento é confirmado por quem lá entra, que raramente quer sair…
Mais uma magoa, mais uma cicatriz. Agora havia que seguir em frente…
As estrelas ainda não se tinham recuperado do que viam, já presenciavam a comparência de novo ser…
Um ser que lhe ocupara o coração e a vida durante quase uma mão cheia de anos…
E agora, estava ela ali… Debaixo do alpendre, sentada na cama de baloiço, vendo as nuvens passar, segredando-lhes a lágrima do percurso que ela mesma acabara de fazer… E agora perguntava-se….
Para onde seguir? Que caminho será o seu?
Maria, procura no céu uma resposta, mas do sol, nada vê…
A tarde estava fresca, no céu estavam pintadas as nuvens… O cinzento do dia, molhava a sua vida, como quem se despedia do verão, e abria portas ao Outono…
A sua pele estava arrepiada, como quem precisa de calor… Como quem precisa de sol… Como quem queria ser aquecida com o amor do sol… Mas, o céu continuava cinzento, a luz, tal como o sol, tapada pelas nuvens do dia… E naquela tarde, Maria, sentia no rosto as gotas de chuva caídas do céu. No céu rompiam relâmpagos e trovões gritando tristeza, como quem se despedia do sol, quente e radiante…
Maria, ergueu-se sentindo a chuva… Levantou o rosto para o céu, e em voz muda gritou ao sol:
- Todas as noites irei tentar ver a lua, amor… Todas as manhãs, em que verei o nascer do sol, em todas as tardes que esperarei pelo por do sol, em todas as noites que esperarei pela lua, eu irei-me lembrar de ti… Irei-me lembrar de nós….
Depois, levou a mão aos lábios, e enviou um beijo ao sol…
publicado por longocaminhopcasa às 18:03

03
Jul 08

 

 
Nasceu o sentimento mais nobre que pode existir…
Quando não se espera nada, quando se vive a sonhar acordada, vive-se na ilusão.
Maria saíra de casa, ainda não tinham batido as oito badaladas, no relógio de pé, instalado no corredor.
Descia no elevador ao som da música criada pelas badaladas daquele que aos seus olhos seria um grande e admirável objecto de estimação.
Seguia a estrada como quem comanda mecanicamente o veículo, e deixa o pensamento voar para bem longe dali…
Não o achou nem pouco nem muito atraente, nem era o tipo de homem que lhe costumava roubar o olhar, ou cativar a atenção, mas nele havia algo que não soube descrever, e que lhe estava a preencher o pensamento.
            Uma empatia, uma sensação de que já se conheciam há centenas de anos, que já partilharam meio século e mais outro de vida…
            Só sabia que ele lhe parecia uma pessoa amável e simpática. Além disso, havia qualquer coisa naquele homem que a fazia ficar ali a pensar na noite anterior, relembrando as conversas sobre ninharias de tudo e nada que tiveram.
Era como se, junto dele, estivesse em segurança durante um bocado, e nada de terrível lhe pudesse acontecer. Ele dava essa sensação. Alguma coisa estava para acontecer. Tinha a certeza disso…
Aquela sensação de simpatia era-lhe demasiado familiar. Condimentada com uma sensação de paz e sossego, regada com carinho e protecção.
Maria parecia ter entregue o seu corpo ao sonho e só foi acordada pelo sorriso que esboçou devido à melodia que tocava naquele preciso momento, na rádio que sempre ouvira, RFM,
 “ Tu eras aquela
que eu mais queria
para me dar algum conforto e companhia
era só contigo que eu
sonhava andar
para todo o lado e até quem sabe
talvez casa
ai o que eu passei só por te amar
a saliva que eu gastei só para te mudar
mas esse teu mundo era mais forte do que eu
e nem com a força da musica
ele se moveuuuuuuuuuuu….”
O sorriso de Maria esticara-se até perder de vista…
Embriagada pelo pensamento e pela melodia, teve o pressentimento de que naquela estrada, por aquele caminho, havia perigo… Talvez por aparecimento de objecto perigoso! O recomendável seria a fuga pensa ela…
Mas parecia inofensivo, ela nunca se poderia apaixonar por um homem assim. Alguém que lhe passara sempre despercebido na rua ou em qualquer outro lugar…
            Quando acordou já tinha estacionado, e já estava na fila da máquina para tirar o bilhete do metro…
            Apesar de adorar gerir a sua economia, havia um aspecto nela que por vezes a fazia derrapar no défice e fazer estas excentricidades de comprar o bilhete do metro, em vez do passe que lhe ficava muito mais em conta… Andava sempre em excesso de velocidade, e o relógio no seu pulso parecia correr mais depressa, compassado com as suas batidas cardíacas, acelerando o ritmo das horas, transformando a falta de tempo e a distracção num real problema…
Maria era uma mulher que tinha tanto de bela, como de uma miúda, inteligentemente, e inteligentemente distraída…
 
publicado por longocaminhopcasa às 19:30

02
Jul 08

 

 
Ela seguiu o seu caminho…
A próxima paragem, foi apenas mais uma das paragens do seu longo percurso, em que ela bebeu da vida o sumo…
Ela uma jovem estudante universitária em fim de curso, aproveitando todos os minutos da vida, ele um jovem aproveitando todos os segundos dos minutos…
A noite estava estrelada.. Do manto azul brilhavam sinais. Do seu significado luzia a convicção que nada se poderia construir, porque nada havia para construir se não uma amizade que perdurou e perdura ao longo do tempo. Ganharam uma amizade linda… Que ofereceram um ao outro, como se oferecem flores, a quem gostamos e recebemos com sorriso, de quem gosta de nós…
O comboio seguia…
O nascer do sol era lindo, e tudo parecia crer que aquele havia de ser um dia lindo e inesquecível para ambos…
Sem a mínima expectativa, sem nada esperar, sem nada sonhar…
Maria saiu da reunião já em passo apressado. Ainda precisava de passar em casa, deixar a pasta e a papelada, dar um jeito na sua indumentaria. Queria sentir-se menos formal, e mais á vontade, vestia umas calças de sarja simples, um casaco de traçar e uma blusa branca por dentro.. Sentia-se muito melhor assim…Pega nas chaves do carro e segue a correr o seu caminho. Caminho cujo destino era sem saber, não mais uma paragem, mas uma das paragens mais marcantes, do seu percurso de vida…
Enquanto descia a avenida da republica pensava…
De inicio apenas se conheciam palavras, frases… Mas naquele dia, sim, naquele dia, iam conhecer gestos, expressões, sorrisos, e reacções.
A reacção não podia ser melhor… Nem muito bom, nem muito mau… Simpatia, sorriso, simplicidade, educação e de aparência muito agradável…
 
Algumas voltas à praça procurando estacionamento… mas, não estava fácil, como ele gostava de dizer… Enquanto ela estacionava o carro, ele observava-a de longe… Ela sentia o seu olhar, como raios de sol e sentia-se bem… Uma sensação agradável, de carinho, protecção e até um pouco de familiar… Embora não existisse nenhuma razão para que o sentisse, naquele momento de inicio, ela sentiu-o…
Apetecia-lhe sorrir, porque se sentia bem…
Gozaram da companhia um do outro, e o sentido das suas palavras só foram partilhadas em segredo com a nuvem de fumo que os envolvia, transformando-se no elo de separação das mesas gémeas, e de todas as outras almas gémeas, que pudessem existir ali naquele simples bar…
Conversa com café e muito fumo no meio da confusão e daí sem saberem, estava a renascer o início de uma amizade que se viria a vestir num monstro transformador de sentimentos… Pois foi daí que nasceu o sentimento mais nobre que pode existir…
publicado por longocaminhopcasa às 18:21

01
Jul 08

 

 
Aquele que viria a ser a sua primeira lição de vida, foi também sem duvida a primeira lição que não foi aprendida…
Uma aventura, em muitas noites de céu estrelado, iluminados num amor sempre sonhado que acorda em pesadelo… Mais uma vez a sua técnica preferida, a fuga… A fuga, foi desde sempre a sua arma preferida… E mais uma vez, não hesitou em usa-la, como quem arruma a espada, e levanta o escudo, para se proteger…
De volta à sua vida, aceita reconstruir, aquilo que ambos vieram a perceber ser uma ilusão…
Ela começa a sobreviver numa estrada por si construída, ele começa a revelar-se a pessoa que ela nunca tinha conhecido…
 Duas primaveras em permanente sono de pesadelo, foram o limite conseguido na duração da dita reconstrução… Reconstrução na ilusão daquilo que nunca devia ter sido reconstruído…
Rezava ela ao percorrer seu caminho de casa, no mês de Abril, do bendito ano de dois mil, e eis que por ironia do destino encontra o rosto de quem fugiu…
Desta vez, não usa da sua arma preferida… E ambos vivem aquilo que teria sido o começo de uma casa… Com um preambulo de mais dois anos de vida…
Durante esses dois anos, ela acaba a relação que tinha, passados uns meses…
E vivem aquilo que parecia ser aos olhos de todos, um amor proibido… Principalmente da ética e dos bons costumes…
Muitas vezes, durante esses dois anos, ela se olhara ao espelho e perguntava:
- Que nome se dá, à mulher solteira, que vivia uma relação com um homem casado?
Vivia uns minutos de angustia, mas depressa se desculpava com as dificuldades da vida, como amor.. O amor é fogo que não se controla.. O coração, e o facto de ele não ter filhos, e le jurar amor eterno…
- Se te tivesse conhecido antes… Se tu não tivesses fugido.. Se não tivesses desaparecido, tudo teria sido diferente…- disse-lhe ele tanta vez…
E ela ouvia as suas palavras como se fossem alimento para a sua fome, acreditando como quem acredita nas lendas que sabe serem apenas isso. Lendas… Palavras… Mas ao mesmo tempo, eram para Maria as palavras que ela precisava ouvir, para se alimentar, para se alimentar do mínimo da razão e continuar a viver esse amor de ilusão, de mentira, de falsidade e traição.
 
Num dia de sol brilhante,  ela acorda com um telefonema…
- Preciso ver-te, amor…
Na sua cabeça fez-se luz… Seria aquele o momento da despedida… Havia que aprender alguma coisa desta lição…Assim o fez…
O dia estava lindo, a tarde tornou-se quente e nos olhos dele, ela sentia o brilho dos seus, desenhados numa mensagem de despedida…
Passados uns meses, e alguns telefonemas e sms, não atendidos ou respondidos, ela percebe que chegou o momento de tirar levantar o escudo…
- Sabes onde estou?
- Sei, estás em casa, que é onde deves estar…
- Na nossa?
- Não, não TUA…
- Calma amor, precisamos de conversar.
- Não há nada para conversar… Só mais uma coisa, podias e devias ter-te despedido de outra forma… Por palavras podias ter-me dito que ias para casa…
- 1º Não podia, porque não me despedi, nem despeço de ti nunca;
2º Não vim para casa, porque a minha casa não é esta…
- Problema o teu…. Beijo vou desligar
- Amor, não desligues, vou a Lisboa amanhã, ok?
- Podes vir quando e as vezes que quiseres, mas a minha companhia, nunca mais vais ter , como e da forma que tiveste…
- Maria, por favor, não fales assim… Não queres que eu vá, eu não vou. Tens toda a razão em estar magoada, eu percebo-te… Precisas de tempo, mas promete-me amor, quando vieres cá, vamos conversar os dois… Está bem, prometes amor?
- Adeus, até sempre, beijo e sê feliz
Começara assim a ilusão do teste aprovado de quem aprendeu uma lição…
Ela seguiu o seu caminho, já no ano de dois mil e dois, seguiu, até á próxima paragem….
A próxima paragem, que foi apenas mais uma paragem em que ela bebeu da vida o sumo e nada aprendeu que a pudesse ensinar a fórmula da protecção…
 
publicado por longocaminhopcasa às 19:12

30
Jun 08

 

Foi apenas um dos seus caminhos percorridos, até encontrar o caminho, o seu caminho de casa…
 Um caminho destruído por descuido, por falta de comunicação, por falta de dedicação e até atenção… Por pensarem que têm tudo certo. Por se esquecerem que todos os dias, nos devemos alimentar, para crescermos... Por ignorarem que todos os dias,  precisamos de luz…
A juventude dela e a beleza e experiência dele, conjugado com a diferença de idade, e de planos profissionais, abriu um canal entre ambos. Um canal  que ambos não souberam ver e tapar…  Um elo, que não conseguiram construir, ou reconstruir, porque até hoje, ainda desconhecem se algum dia o tiveram...
Sem forças, não conseguiram lutar contra as guerras que os envolviam.
Levantaram os  braços, deixando cada um seguir o seu caminho…
Num belo dia de sol, ela, cansada, principalmente  de tantas mentiras, vestira a ressaca  de uma discussão presenciada pela lua cheia que raiou na noite anterior, pega nas malas e  segue na direcção do seu retiro espiritual…
Estavam em finais de Julho, do ano de 1997, época de festas nas aldeias próximas do seu retiro… Como boa menina que sempre foi, resolveu chorar as mágoas a dançar num bailarico de uma povoação próxima…
Por ironia do destino, encontra uma cara que não lhe era desconhecida…. O dono dela era, aquele que viria a ser,  a sua primeira lição de vida…
publicado por longocaminhopcasa às 18:55

29
Jun 08

 

Ele …
Ele era e é aquilo a que se pode considerar de um belo homem!
De cima do seu mais de 1,90m de altura, bem composto, sempre amável e educado nos melhores colégios de Lisboa.
Dividiu a infância entre o bairro de Alvalade, Santa Cruz e umas centenas de cidades Europeias e não só, por onde acompanhava o pai e a família na sua profissão.
Havia algo nele que lhe chamava a atenção, e não era só o seu belo físico ou a sua postura. Era o seu carácter, o desafio que ela supunha que ali existia, deixava-a completamente seduzida… Louca, cheia de vontade para lutar, correr mais aquele caminho, só para sentir aquele bichinho na barriga sinónimo de vitória… E depois sorrir. Sorrir e gozar as férias de justiça, de felicidade, de vitória…
Olhos de traição, pele caramelada digna de ter sido também muito beijada pelo sol, cabelo negro, sorriso transparente e sedutor. Vestia um olhar de esguelha, que costumava usar para verificar que ao passar, tinha deixado a sua marca, nas meninas mais bonitas… Ou pelo menos aquelas que mais lhe enchiam a vista, ou que mais lhe interessavam, por ter deter minados atributos que o encantavam…
Mulheres seriam então, meros esqueletos com pernas, cú, mamas, e claro, a frente do cú. ! Sim porque bastava um cú para esquecer um rosto…
Desde cedo que ela pôde concluir o que realmente era importante para ele, e que fim poderia ter aquela novela.
Ele parecia querer vingar-se das mulheres. Reflectindo em todas as que pelos seus braços passavam, o ódio que sentia pela amante do seu pai…
A D. Manuela, mais conhecida pela secretária/ braço (corpo) direito, do senhor engenheiro … A acompanhante de todas as reuniões no estrangeiro e pelo pais fora…
            Só mais tarde ela foi descobrindo estas pérolas acerca deste príncipe mascarado… Estes mimos que descobriu num simples homem, bonito e carente. De amor de paterno, de revolta familiar, e de dor por ter sido obrigado a fazer um luto precoce do seu confidente, amigo e irmão mais velho. Aquele que tanta vez ocupou o lugar que o pai deixara vazio enquanto mantinha a sua outra família, acabara de partir para o reino dos sonhos sem imagem. Uma morte estúpida, ceifada por duas rodas numa estrada sangrenta…
Ela sentiu um desafio, num misto de homem carente e quebra corações.
Mas ainda assim, resolveu brincar, fazendo dele o seu fogo… Como mulher quente que é, ela sempre gostou de brincar com o fogo… E que mais poderia ser aquele monumento se não lenha para se queimar?
Monumento feito de esqueleto muito bem delineado, modelo coincidente com corpo trabalhado em demasiadas horas de ginásio, e com um coração enorme, embora fechado, embora ferido….
Ela via nele o seu perfume floral num corpo muito bem suado em vigiado exercício. Sempre em forma de indumentária.
Resumindo ele aos seus olhos eram impecável de cheiro, doce e  em seu pensamento, delicioso, adivinhando o seu doce sabor…
publicado por longocaminhopcasa às 00:20

27
Jun 08

 

 
Ela era e é uma mulher muito bonita. Uma digna princesa, menina e mulher. Alta, para o normal das mulheres portuguesas, muito magra e também muito atraente.
Com um corpo encantador, sensual, fascinante e sedutor, de fazer parar o olhar de qualquer um… Mesmo o mais exigente. Até o seu!
Ao contrário das falsas louras oxigenadas, esta usava longos cabelos doirados. Loiro escorrido pelos ombros, ora liso, desfrisado, ora em forma de canudos, ora em longos e dourados caracóis, emoldurando-lhe um rosto de uma beleza com tanto de sensual como de angelical…
Vestia uns grandes e esbeltos olhos azuis, incisivos e límpidos mas desconsolados. A beleza daquela mulher, e a melancolia que via nos seus olhos, fizeram desde logo tremer algo dentro de si…
Cada vez que com ela se cruzava, não podia desviar os olhos dos dela. Parava a contempla-la com o deslumbramento dos seus cinco sentidos.
Uma deusa parecia sussurrar uma voz altiva dentro de si…
Nunca se tinha sentido assim tão desvanecido pelos olhos de alguém. Os dela tinham tanto de claridade e profundidade como de tristeza… Um azul do céu cristalino, com um anel azul-escuro a circundá-los, fazendo-me lembrar o mar, com tantas cores… Pequenas ilhas cor de mel e pequenos pontinhos pretos pairam naquele forte olhar…
Uma boca incrivelmente bem desenhada. Rosada e pintada com dois lindos traços de veludo naturais. Os lábios enfeitiçados que se adivinhavam já, doces e carnudos…
A sua pele é de um branco tépido, mas naquele momento apresentava um tom dourado, adivinhando o fim das férias recentes em praia de muito sol…
Por debaixo dos seus tops e das suas mini saias justas, presas à sua delgada e rija cinturinha, adivinhavam-se umas sedosas pernas longas, musculadas e muito bem feitas, assim como as outras linhas sensuais das curvas do seu jovem e gracioso corpo…
Os seios plantados no peito musculado, pareciam ainda recém nascidos mas viam-se já túrgidos de uma secreta veemência prontinha a estrepitar.
Nada nesta beleza fatal, fazia dissimular o seu carácter: o nariz altivo, a por vezes cega determinação, a teimosia, a arrogância, a desconfiança.
O medo de mostrar os medos, ou parecer fraca, fazia dela um autêntico touro em plena arena. Divertia-se dando cornadas e toireando todos os homens que lhe mostravam os dentes.
 Via nela, uma autentica matadora e um touro terno de lide… Uma Maria rapaz, e uma linda, sexy e sensual mulher… Uma beleza natural, sem retoques, e uma autenticidade que irradiavam numa autoconfiança impressionante, como de facto ele nunca tinha visto.
Uma deusa, a sua d e u s a, princesa, m e n i na, mulher.
Ela a mulher da sua vida, ele, também seria, até há pouco tempo, o homem da sua vida!
Embora perdidamente apaixonados uns pelo outro, a guerra continua de 6 anos de namoro, não permitiu que ficassem juntos levando-os a tomar uma decisão que modificaria irremediavelmente a vida de ambos…
E este foi apenas um dos seus caminhos percorridos, até encontrar o caminho, o seu caminho de casa...
publicado por longocaminhopcasa às 17:48

26
Jun 08

 

 
            Continuou assim perdida por uns dias…
De cabeça inclinada para baixo, olhos tristes plantados em sorriso amargurado, seguia a sua caminhada, contando as horas do dia, e os minutos das noites que voavam no seu calendário…
A cada segundo que passava, a sua mente estava ocupada com pensamentos e com analises, retrospectivas do que tinha sido a sua vida… Quem era, o que tinha passado e quem queria ser… O que queria esquecer, e o que queria apontar sublinhado, como aprendizagem da vida…
O amor… Era o vocábulo que mais lhe ocupava a mente…Pensava nesse sentimento tão belo e tão nobre… Meditava em como se poderia tornar num carinhoso monstro tão complexo.
Em nome dele quantas e quantas vezes somos obrigados a ceder, a ultrapassar barreiras e a lutar para vencer.
Pensava em como belo seria o amor, paternal, maternal… O carinho e dedicação da família e amigos… Seleccionava com lágrimas aqueles que mais a marcaram, e no centro da pirâmide, havia uma avó e um pai… Depois seguia-se o amor de mãe, que foi crescendo como ela… Mas há outros amores, e a sua historia como o seu coração, estão repletos de amor…
A sua história fala-nos de um amor… Do seu amor… De si… Dela, dele, deles e de nós… Um amor que só mais tarde se viria a realizar.
Algo que a fez recuar no tempo e relembrar o passado, quando conheceu aquele que pensava ser o único homem que amou em toda a sua vida.
Maria era ainda uma jovem com pouco mais de 15 anos quando, na primavera e começo das aulas, se apaixonou por Garry. Conheceram-se uns dias mais tarde do começo das aulas, embora tivessem reparado um no outro, desde o primeiro dia. No entanto, ele era uns anos mais velho, estava a fazer algumas disciplinas que deixara no  ano anterior. Gozava de uma fama de galã invejável… Na verdade não era só o rapaz mais cobiçado do liceu, como aquele  aquém  mais namoradas lhe eram conhecidas…
publicado por longocaminhopcasa às 17:58

25
Jun 08

 

 
Os dias foram passando, e o verão continuava inconstante….
Ora trazia no coração o calor que o sol lhe oferecia, ora sentia nos ossos o gelo que a brisa fria lhe ofertava…
Ora sorria, ora sentia os ossos a rugirem-lhe em voz alta na alma o gelo da sabedoria da justiça…
Sobremesa barrada com a doce moral.
Provava da sua ideia de justiça, e bebia da solidão amarga que teimava em a aconselhar sobre a bíblia da justiça divina…
Lá fora lê no céu a mensagem que lhe diz a imagem do raio que se rompe no manto azul negro da noite…
Nos seus ouvidos zoa o som da música da voz de comando do senhor ralhando-lhe… Tal qual como ela  tinha previsto…
- Ouves? É o nosso senhor a ralhar….
- A ralhar, avó? Está zangado? Com quem? Porquê?
- Sim, com os homens maus, que fazem maldades, fazem a guerra e cometem pecados….
- O que é um pecado, avó?
-Espera.. Toma, lê este livro.. Quando acabares dir-me-ás tu o que consideras pecado, sim?
- Está bem…
Tinha pouco mais do que uma mão cheia de anos…
 Passadas já quase 3 décadas, ela nunca acabou de ler o livro todo… Leu saltando folhas, fazendo batota, para que pudesse continuar na ignorância, vivendo a vida, saboreando-a lentamente e colhendo-lhe os frutos… Uns bons, outros maus… Mas queria poder ser ela a selecciona-los… Distinguindo sempre o bem do mal, mas sempre sem ter que suportar na mente, o peso da consciência do que era para o mundo  considerado pecado…
No entanto, ouvia rumores… Juízos de valor que se apregoavam. Ora por quem nunca lutou pela felicidade, ora por quem foi abençoado pela felicidade e não lhe sabe dar o valor….
Olhava o céu e perdia-se em pensamentos… No que tinha lido, no que tinha aprendido, e no que ia ouvindo….
Sabia quem era , e tal como o tempo, ela também se sentia inconstante….
 Ora bem, ora mal… Ora com asa de anjo, ora pecadora…
Tal nuvem branca e pura tal lua pecaminosa…
 Tal qual como ela se sentia também…….
Flor frágil e doce, mascarada de forte…
Guerreira que facilmente vestia o seu traje para lutar contra o seu inimigo, o seu coração… E chegara esse momento…
 Sabia o que estava certo, não pelas leis do pecado, mas pela pior e mais rude lei … A que emana da sua razão…
Acabara o dia a pensar no que mais a atormentava nos últimos dias…Que tinha de tomar uma decisão… Dar voz à razão na luta contra o coração…Uma decisão que a magoava…. Mas, precisava faze-lo por mais que lhe doesse… Era o mais justo, era a decisão mais acertada, era o que tinha de fazer, embora fosse esse o espinho que mais a magoava neste instante, era algo que tinha de ser feito…
Por mais problemas que lhe inundassem a mente, isso era o que mais a fazia sofrer… O ter de tomar essa decisão…
O amor é como um pombo correio, abre-se a porta , e deixa-se voar…. Espera-se … Se voltar é porque aprendeu com a vida, os ensinamentos do que realmente é importante. Aprendeu o que é o amor… Sentiu o seu real significado… Lutou, voou, sentiu saudade, chorou…Sofreu….e percorreu o caminho e Voltou…. Se não voltar é porque ou não aprendeu, ou não foi importante aprender…. Há quem se prefira perder, no caminho da sua casa…. Ora tornando-o longo, ora transformando-o numa estrada inatingível…. Assim sofre e faz sofrer menos...
publicado por longocaminhopcasa às 19:22

24
Jun 08

 

 
À noite, tocou com a mão no peito, fechou os olhos e sentiu que no peito continuava a transportar o brilho de uma estrela no meio daquelas que tantas vezes no manto negro da noite contara…
No reflexo da janela viu no seu olhar o brilho… Pensou no brilho da estrela que via no céu, fechou os olhos a sonhar e imaginou que seria o brilho do seu amor a guia-la… Seria um sinal, como quem diz:
- Estou aqui amor, amo-te e quero-te…. Eu estou aqui contigo….
Envolvendo-a seguidamente num forte abraço aconchegante, interrompido por um beijo na testa e mais um abraço….
Ela continuou a sonhar e podia sentir a mesma sensação que sente um passarinho no ninho, aconchegada, amada, protegida, feliz…
Voltou novamente a abrir os olhos, e a ver o seu reflexo no espelho, mas nada mais viu se não a sua imagem….
Procurou no céu o sinal, mas a estrela tinha deixado de brilhar, confundia-se no meio das outras…. No meio de tantas outras…
Na madrugada rompia o sol…
O Sol… Pensa ela… O Sol…Quando lhe acodem os seus raios, ela costumava deliciar-se com o mel que este lhe oferecia….
Ao levantar o corpo da cama pega na alma molhada e angustiada pensa:
Está  na hora de ir embora? … Será esta a hora?
Num ápice olha pela janela e sente o brilho da fonte que atrasa a sua partida…. Começa a meditar outra vez na vida. Na vida que levava e transporta-se novamente para a história do sol e da lua… O sol também raramente encontra a lua…
Acabada de chegar, ao principio do meio, da chegada,. da Chegada para o longo caminho de casa , sente que, que precisa urgentemente de um sinal, de um eclipse…
De um eclipse.. E não só um eclipse, não só da lua e do sol….
publicado por longocaminhopcasa às 21:03

23
Jun 08

 

 
              Seguiu o caminho rasgando a estrada, como quem rasga as cartas do passado carregadas de mágoa. À medida que via o adeus  a fugir-lhe nos traços brancos que dividiam a estrada, ia pensando no que queria deixar para trás, no passado, e no futuro… No futuro que queria construir, e na pessoa que queria voltar a ser… Ela…. Apenas ela… Queria conjugar de novo um verbo que deixara de conjugar há já muito tempo… Viver… Conjuga-lo na frase: Viver a vida amando e com amor… A sua VIDA!
          Seguia o seu caminho, mas desta vez, o céu não se pôs negro. O clima não se tornou frio e parecia que estava a viver um novo mês, num novo ano, já não o de Agosto, mas o de Setembro… O de um ano qualquer, que não este… Porque este estava ainda muito próximo…
Regressou então, não ao ponto de chegada, mas ao que devia agora ser entendido como ponto de partida…
          Na mão trazia uma rosa… Não lhe tinha sido oferecida por ninguém. Tinha sido roubada por si à roseira do seu jardim… Colheu-a com o carinho próprio de quem a plantou, a alimentou, a regou, a acariciou tantas vezes nos espinhos, nas folhas velhas, mas principalmente, lhe respeitou os espinhos…
             Ao sair do carro com as ultimas malas, pegou com o carinho que a caracteriza na rosa, e do seu rosto emanou um sorriso molhado de nova vida e respeito… Pensou nas mágoas e nas nódoas negras que o seu corpo exibia, deu um beijo molhado na rosa, e do meio dos espinhos brotou-lhe em jeito de nova vida um sorriso…. A medo, tocou com o dedo no espinho, devagarinho para não se picar…. Acariciou-o e dela nasceu um sorriso…
            Subiu no elevador a pensar, nos seus espinhos, e nos seus medos…. No respeito que tinha por eles, e em como, tal como fizera na rosa, ao percorrer aquele caminho, agora os tinha encontrado no regresso, os tinha tocado, acariciado e respeitado… 
            Depois de percorrer um caminho, estava a respirar uma nova vida.
Beijando os espinhos, olhando para a rosa sorriu, como quem lhe segreda que precisa agora do amor, carinho, protecção e dos mimos que já lhe ensinou a receber….
publicado por longocaminhopcasa às 19:37

22
Jun 08

 

 
       Pela incerteza esperava calada…
       Pensava…. Esperava por uma palavra… Palavra em que ela agora pensava e que não lhe saia da cabeça… Era apenas um pronome pessoal que ela desejava muito poder conjugar bem alto, em voz de grito para que toda a gente pudesse testemunhar…. Sem qualquer tipo de receio… Nós… Nós… Nós…. Eu, Tu, NÓS….
       À noite, via o brilho da lua por entre a luz de lágrimas. Lágrimas de amor, de dor, de raiva, e alivio. Sim alívio… Lágrimas de saturação, tal como aquelas que tinham caído do céu…
        O Céu… As estrelas, o sol, a lua…
Lua, esta que ama, o seu sol, distante…, pensa ela…
A lua que espera eternamente pelo seu amor…. Continua a pensar….
Adorava poder ser como a lua, continua pensando…
E lá está ela, na noite escura, como a lua, esperando pelo dia, para puder ver o sol alegre e contente. Brilhante aquecendo-lhe o sorriso.
        Percorrendo o seu  triste caminho, ela vai tropeçando no sorriso das estrelas, que lhe oferecem o seu próprio sorriso...
        Esperando ver a felicidade…. A felicidade que lhe seria dirigida, se fosse… Estava ela como a lua, à espera da sua vez… À espera que a estrela cadente, lhe indicasse o caminho…
     
         O caminho de casa. O caminho da sua casa…
 
publicado por longocaminhopcasa às 19:58

21
Jun 08

 

 
             Parecia ter chegado ao final do ano... Chuva, frio, nevoeiro…
            À medida que se ia afastando na estrada, ia imaginando o sol, via-o timidamente a romper as nuvens, que ao mesmo tempo também via estarem cheias de lágrimas. As suas lágrimas. A suas lágrimas a caírem do céu… Seguia caminho trepando a estrada. Como quem trepa uma montanha de ilusões. De sonhos… Remando com a ferocidade de quem precisa de sair dum remoinho… Nadando para se manter a flutuar… Pensando no que ficou para trás, no passado, no futuro e em como inesperadamente o céu por todo o lado se pôs negro. O clima tornou-se frio, e ela vai pensando nas coincidências da vida… Nas coincidências da natureza, e em como do céu em pleno mês de Agosto, caíram também lágrimas fortes, diria mesmo torrenciais, em alguns pontos dos pais…
            O final de Agosto parece ter chegado mais cedo, chegara a Setembro sem esperar, ou seria ao Inverno, final do ano? Parecia Inverno, com chuva, lágrimas e o céu, não só mas também ele muito nublado…
            Seguia a estrada e chegada à serra, apanhara nevoeiro… Olhava ao redor com espanto e não queria acreditar, nevoeiro em Agosto…. Mudanças, parece que chegamos ao final do ano... Mudanças no clima…
Ela, enfrentou-as como pode. Usou da força que não esperava ter e vestida com a capa que nunca teve de usar, foi enfrentando a tempestade no seu céu…
           À luz do dia, e no meio do céu escuro, iluminada pela média luz fosca da estrela distante, uma luz de AMOR puro, forte e indomável, seguiu o seu caminho no meio de chuva que caiu do céu perdida, tal como ela se sentia… Perdida…
         Chegada ao destino onde esperava se encontrar, no ar havia um estranho vento húmido que confundia o tempo, o modo e o lugar…
Sim foi ali. Tanto quanto é possível localizar, numa visão secreta da vida. Foi ali… Subiu ao seu quarto e naquele instante em que se viu confrontada frente a frente, com o passado recente e com a sua imagem no espelho, mas ainda não desligada dela, que ela resolveu libertar-se em desabafo de choro…
 Ali naquele momento, perante aquela imagem reflectida no espelho, ela ia tentar transferir para a outra parte de si, aquela sem memoria, ou de memoria apagada o seu passado recente… Aquela memoria branca que é por consequência incapaz da menor relação passado presente de si com outro alguém ou do real com a visão que o abstracto contem… Ela… No espelho desejava ver ela… E sonha que ela sem memoria, se esvai pelo presente, que simultaneamente deseja  ver tanto passado como passado morto…  Ela... Deseja soltar-se da existência anterior, e interior de magoas… Porque sem referencias do passado morrem os sentimentos, as ideias, os afectos e os laços sentimentais que a magoam… Razão pela qual ela se encontrava  então perdida, e à procura do seu caminho para casa…
                 Aquele que tinha vindo a ser, um longo caminho para casa…
publicado por longocaminhopcasa às 22:45

20
Jun 08

 

        O barulho da água a correr na banheira despertou-lhe a consciência de que se devia levantar.

        Empinou então o peso do corpo mole e cansado , erguendo-o da velha e ruidosa cama…

        Fê-lo com dificuldade, devido aos bombos que teimavam em tocar na sua cabeça, Contudo, lá se conseguiu colocar na vertical.

       Arrastou as pernas até à casa de banho, tentou lavar o que pode da alma e das lágrimas de mágoa.

       Dor que se confundia, tanto no rosto, como nas restantes partes do corpo

       - Maria, o pequeno-almoço está na mesa.

       - Já vou.

      Um galão e uma sandes de queijo da serra, foi o manjar que lhe tinham preparado.

     Depois da casa arrumada e as malas no carro, restava-lhes uma pequena diligência que cumpriram antes de se meterem à estrada novamente.

      O dia tinha acordado demasiado cinzento para que se pudesse pensar em sol, e estavam a cumprir-se as ameaças de chuva que se anunciavam…

      O final de Agosto parecia ter chegado mais cedo, parecia Inverno. No pára-brisas, escorriam as lágrimas que caíam do céu. Lágrimas gemidas por nuvens em fúria, empurradas pelo sopro do malvado vento.

      Vestida na protecção do seu carro, carregava no acelerador com a fúria que é precisa para rapidamente atravessar o temporal…

        O limpa pára-brisas, empurrava para os cantos do vidro, a chuva, como quem empurra as lágrimas nas gotas de tristeza, para o lado da vida…

       Não era só o céu que estava nublado…

publicado por longocaminhopcasa às 23:02

19
Jun 08

 A claridade rompia pela brecha da janela semiaberta. Os raios de sol, iluminavam o rosto já aquecido que repousava na almofada molhada…                                                              

   Do outro lado um acervo de almofadas espalhadas, ocupavam-lhe o vazio e enfeitavam-lhe a cama...Levanta a cabeça com dificuldade, olha para a janela e admira o azul do céu … Limpo…. Pensa admirada… Outro dia, outra estrada, outra vida… Falta-lhe o sorriso,  sente o peso da cabeça e o custo no abrir dos olhos…. Passa o olhar pelo verde dos montes, sorri para as nuvens e pára no azul do céu…      Deixa cair novamente a cabeça na almofada, Como flashes de luz branca, incandescente e cegante a brotarem ideias e pensamentos tentando completar o puzzle…O que foi que me sucedeu, como cheguei até aqui? … Palavras que lhe assaltam à ideia, desafiando-lhe a memoria…Vira novamente a cabeça na almofada e no espelho vê uma imagem reflectida…Ao som do tiquetaque do relógio do corredor, meio adormecida mantinha-se imóvel e silenciosa, observando a luz do seu amado sol, que reflectia no espelho.Fechou os olhos e sentia as palavras a dançarem-lhe nos ouvidos, ao som de martelos enfurecidos… Pensava na tarde de verão, no azul triste e perdido dos olhos do pai, na surpresa e incredulidade do rosto da mãe e nas expressões de toda a família. Levanta subitamente a cabeça da almofada enterrando-a debaixo dela, como uma avestruz que sufoca a cabeça na terra, obrigando o seu corpo a adormecer. Cerra ferozmente os olhos, segura com força na almofada, como quem segura na mão amiga, abraça o monte de almofadas, rezando para voltar a dormir, na esperança de acordar deste pesadelo, ou sonhar com o brilho do seu sol…

publicado por longocaminhopcasa às 20:40

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